Em uma tarde ensolarada de outono, enquanto as folhas amareladas caiam e davam alguma vida aquela praça cinzenta e muda, caminhávamos ao encontro do nosso bom e barato vinho, no bar da esquina. Discutíamos sobre a vida das pessoas que rondavam aquele lugar. Todos trancafiados em seus pensamentos, loucuras que nunca seriam expostas ao mundo dos que se dizem normais. Universos paralelos em meio ao labirinto que vivemos.
Sentamos para jogar xadrez. Ele me contava mais uma de suas historias. Só que essa era mais dramática. Falava de seus sentimentos. Contou-me que era apaixonado por uma moça que vivia na praia onde ele morava. Foi sua maior paixão. Ela o fez mudar. O pálido e insensível garoto ganhou vida nos braços da jovem e ingênua mocinha. O pai da moça era rígido e conservador, queria sua filha intacta para o casamento. Casamento que ele escolheria. O jovem casal se encontrava ao lado das pedras na beira da praia, momentos únicos que passavam com a lentidão do barco que transitava no horizonte.
Ela engravidou. Teve que fugir e levar o fruto daquele amor consigo. Ele ficou e não mudou seu jeito de levar a vida. Mas nunca foi o mesmo.
Muitos anos depois ele viu um garoto. Bateu os olhos e sentiu um calor o preenchendo por dentro. Reconhecia aquele olhar. O mesmo olhar vago e independente que a mulher de sua vida tinha. Mas ele nada fez. Ficou parado, esperou seus pães e foi para casa saciar a fome que o corroia.
O vinho terminou. Fui até o bar para comprar mais daquela arma. Arma no bom sentido, pois, abria as idéias e engrandecia os pensamentos. Dava uma força descomunal aos devaneios, trazendo para a realidade, o mundo distante em que inconscientemente vivemos dentro de nós mesmos. Comprei o bem e voltei ao banco.
Chegando lá vi que ele estava dormindo. Notei a paz que aquela imagem passava. Seu sorriso mesmo dormindo levava aos mais distantes lugares. Ao inimaginável. Cheguei mais perto e toquei em sua mão. Nenhuma resposta. Sacudi mais algumas vezes e nada. Sabia que ele tinha ido. Mais cedo ou mais tarde, ele deixaria este mundinho de privações. Prestei bem atenção no seu rosto, decidi que aquela era a imagem que eu teria dele. Paciente e atencioso. Não sei o que ele pensava de mim. Mas gostaria que ele tivesse me chamado de filho.
O sol aparece, e os casacos saem dos ombros cansados. Pra uns claro pra outros escuro. Mas a cidade sempre vai ser um ponto obscuro.
Escrito por Christofer Silva às 01h47
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